Programa ambiental de Santa Catarina investe em produtores rurais para recuperar áreas degradadas
Santa Catarina deu um passo importante na agenda da sustentabilidade com o lançamento de um programa ambiental inédito que promete transformar a paisagem rural da Bacia Hidrográfica do Rio Uruguai. A iniciativa, implementada neste mês de maio de 2025, prevê pagamentos de até R$ 12 mil por hectare para produtores rurais que se comprometerem a restaurar suas Áreas de Preservação Permanente (APPs).
O programa atende 148 municípios do estado e é fruto de uma colaboração entre diferentes entidades: a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), a empresa Foz do Chapecó Energia, o Sicoob e os próprios produtores rurais. A proposta é ambiciosa: promover a revegetação de áreas que sofreram intervenção humana com espécies nativas, valorizando tanto o meio ambiente quanto as propriedades envolvidas.
Objetivo: recuperar APPs e proteger nascentes, fauna e qualidade da água
As Áreas de Preservação Permanente são espaços protegidos por lei, essenciais para a manutenção dos recursos hídricos, da biodiversidade e do equilíbrio climático. No entanto, muitas dessas áreas foram degradadas ao longo dos anos por ocupações inadequadas, desmatamento e atividades agrícolas sem planejamento ambiental.
O programa pretende reverter esse cenário, oferecendo suporte técnico e financeiro para que os produtores transformem essas áreas impactadas em corredores ecológicos, replantando espécies nativas e garantindo a conservação dos recursos naturais.
“Quando recuperamos uma APP, protegemos nascentes, melhoramos a qualidade da água, favorecemos a biodiversidade e damos equilíbrio climático à região. É um investimento com retorno social, ambiental e econômico”, afirma Dirceu Leite, presidente da Epagri.
Produtor rural será pago por hectare restaurado
Um dos principais atrativos do programa é o incentivo financeiro direto aos produtores. Para cada hectare restaurado, o produtor poderá receber até R$ 12.763,44, valor pago em quatro parcelas distribuídas ao longo de três anos, conforme o cumprimento das metas estabelecidas.
De acordo com Juliane Justen, coordenadora do Programa de Desenvolvimento e Sustentabilidade Ambiental da Epagri, os produtores terão a responsabilidade de:
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Realizar o cercamento da área com arame;
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Efetuar o plantio de espécies nativas certificadas;
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Manter a vegetação plantada em condições adequadas de crescimento.
A densidade mínima exigida é de 600 mudas por hectare, com foco em árvores e arbustos nativos como angico, cedro, paineira, pitanga, guabiroba e jabuticaba.
Fiscalização e apoio técnico garantem seriedade à iniciativa
O acompanhamento da restauração será feito por técnicos da Epagri, que realizarão visitas anuais às propriedades para:
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Orientar o plantio e o manejo adequado da vegetação;
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Verificar o estado de conservação da área;
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Liberar ou bloquear as parcelas do incentivo, conforme o cumprimento das metas.
“A continuidade dos pagamentos está diretamente relacionada ao engajamento do produtor e à eficácia da restauração”, explica Humberto Bicca, analista de extensão da Epagri e coordenador do programa.
Essa metodologia assegura a seriedade do investimento público e privado, promovendo resultados ambientais reais e duradouros.
Quem pode participar: critérios de adesão ao programa
Para aderir ao programa, o produtor precisa atender a alguns requisitos básicos:
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Possuir uma APP antropizada (com sinais de intervenção humana);
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A área mínima para participação é de 0,3 hectare;
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A área não pode ter obrigações legais anteriores ou ter recebido benefícios em outros projetos semelhantes;
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O produtor deve assumir compromisso de manutenção e conservação da vegetação plantada.
A inscrição pode ser feita diretamente em um escritório da Epagri, em agências do Sicoob ou junto à Foz do Chapecó Energia. A equipe técnica orientará cada etapa da adesão e esclarecerá dúvidas sobre as exigências e o cronograma.
Parcerias fortalecem a governança ambiental no campo
O programa é um modelo de governança ambiental colaborativa, onde o setor público, privado e a sociedade civil compartilham responsabilidades e benefícios. A Foz do Chapecó Energia, responsável por operar uma das maiores hidrelétricas do Sul do Brasil, participa como parceira estratégica e financiadora.
Já o Sicoob, sistema de cooperativas de crédito, oferece apoio institucional e suporte aos produtores durante o processo. A Epagri atua na capacitação técnica e extensão rural, com experiência consolidada em práticas sustentáveis no campo.
Essa aliança garante que o programa tenha base técnica, viabilidade econômica e legitimidade social, aspectos fundamentais para o sucesso de iniciativas de restauração ecológica.
Benefícios ambientais, sociais e econômicos
Os benefícios esperados vão além da recuperação visual da vegetação. O programa deve resultar em:
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Proteção de nascentes e cursos d’água;
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Melhoria da qualidade da água para consumo humano e irrigação;
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Redução da erosão e do assoreamento dos rios;
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Recuperação da fauna local com corredores ecológicos;
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Valorização das propriedades rurais envolvidas;
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Geração de renda direta para pequenos e médios produtores.
“Preservar hoje é garantir o futuro”, reforça o presidente da Epagri, destacando a importância de políticas públicas que incentivem o produtor rural a ser protagonista da sustentabilidade.
“Juntos, podemos plantar um futuro melhor”
O programa foi lançado com uma campanha institucional forte, cujo slogan resume o espírito coletivo da ação:
“Juntos, podemos plantar um futuro melhor.”
A frase sintetiza o conceito de cooperação e responsabilidade compartilhada, demonstrando que é possível produzir com respeito à natureza e transformar o meio rural em um espaço de regeneração ambiental.
Modelo pode servir de inspiração para outros estados
Santa Catarina se posiciona na vanguarda da restauração ambiental rural, e o programa pode se tornar referência nacional. A ideia de pagar o produtor pelo serviço ambiental prestado já é aplicada com sucesso em países como Costa Rica e México, e começa a ganhar força no Brasil.
Com a crescente pressão internacional por práticas agropecuárias sustentáveis e combate ao desmatamento, iniciativas como essa colocam o estado em consonância com os compromissos climáticos globais, como o Acordo de Paris.
Conclusão: restaurar o campo é semear o futuro
O novo programa ambiental de Santa Catarina é mais do que uma política de recuperação de áreas degradadas: é um investimento estratégico que alia conservação ambiental, geração de renda, desenvolvimento rural e segurança hídrica.
Ao oferecer suporte técnico e incentivo financeiro direto aos produtores, o estado reconhece o papel central do agricultor na construção de um modelo agrícola resiliente, produtivo e sustentável. A expectativa é que os resultados se reflitam não apenas na paisagem, mas também na qualidade de vida das comunidades rurais e na garantia de recursos naturais para as próximas gerações.
Produtores que aderirem à proposta não estarão apenas plantando árvores — estarão plantando futuro.

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