Na última sexta-feira, 6 de junho de 2025, mais de 400 máquinas agrícolas tomaram a rodovia ERS-153, entre os municípios de Tio Hugo e Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul. O motivo: um novo tratoraço organizado por produtores rurais que exigem a securitização das dívidas acumuladas ao longo de anos de perdas por estiagens e desastres climáticos. Com faixas, buzinas e uma marcha lenta, os agricultores chamaram a atenção para o que classificam como a maior crise financeira enfrentada pelo setor agrícola gaúcho em décadas.
O movimento é parte de uma mobilização estadual cada vez mais ampla, que já soma mais de 85 pontos de protesto em diferentes regiões do estado. Apesar de recentes anúncios do governo federal prorrogando parte das dívidas, os manifestantes afirmam que as medidas são paliativas e não resolvem o problema estrutural do endividamento rural.
Tratores nas estradas: uma mobilização crescente
O protesto desta sexta-feira mobilizou centenas de produtores rurais de municípios como Marau, Coxilha, Pontão, Camargo, Vila Maria e Victor Graeff. A marcha de tratores, que percorreu trechos da rodovia ERS-153, resultou na concentração de máquinas e agricultores ao longo do dia em Passo Fundo, chamando a atenção de motoristas e da mídia local.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), ao menos 15 rodovias federais foram parcial ou totalmente bloqueadas por atos semelhantes em todo o estado. Embora a movimentação tenha sido pacífica, os organizadores reforçaram que a intenção é pressionar, e não apenas chamar atenção.
"Estamos aqui porque precisamos de uma solução concreta. A prorrogação das dívidas anunciada pelo governo é como empurrar a crise com a barriga. Queremos a securitização de fato", disse Juarez Trentin, um dos líderes do movimento em Camargo.
O que é a securitização das dívidas rurais?
A principal reivindicação dos produtores é a securitização das dívidas agrícolas — ou seja, a conversão das dívidas atuais em títulos com prazos longos, de até 20 anos, facilitando o pagamento e oferecendo fôlego financeiro para quem já enfrenta sucessivos prejuízos. A proposta visa impedir a inadimplência em massa, evitar a falência de propriedades familiares e garantir a continuidade da produção no campo.
Esse modelo de securitização já foi utilizado em décadas anteriores para salvar o setor agropecuário em tempos de crise. Atualmente, tramita no Senado Federal um projeto do senador Luís Carlos Heinze (PP-RS), que propõe um plano de securitização no valor de R$ 60 bilhões. A proposta já foi aprovada na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária e aguarda análise em outras comissões antes de seguir ao plenário.
Estiagens recorrentes aprofundam a crise
A crise vivida pelos agricultores do Rio Grande do Sul não é recente. Nos últimos cinco anos, o estado enfrentou repetidas estiagens, algumas das mais severas da história. Os prejuízos acumulados afetaram não só a safra de grãos, como milho e soja, mas também a pecuária e a cadeia do leite.
Em muitos municípios, os índices de produtividade despencaram, ao mesmo tempo em que os custos de produção subiram — pressionados por inflação, aumento de insumos e taxas bancárias. O resultado foi um cenário de endividamento generalizado, com milhares de produtores em dificuldades para honrar parcelas de crédito rural, impostos e investimentos em tecnologia.
"Não estamos falando de um ou dois anos ruins. Já são cinco anos de perdas. Precisamos de um plano de sobrevivência no campo", alertou Selmar Derlam, produtor de Victor Graeff que participou da manifestação a pé, segurando um cartaz com os dizeres “Sem securitização, não há futuro”.
Medidas do governo federal são consideradas insuficientes
No final de maio, o governo federal anunciou uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que prorroga por três anos as dívidas de custeio e por um ano as parcelas de investimento com vencimento em 2025. A medida, no entanto, foi recebida com ceticismo pelos agricultores.
"Não resolve o problema estrutural. É uma medida emergencial que não muda o cenário de fundo", declarou um representante da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), que apoia os protestos.
Segundo a entidade, é necessário um programa robusto, com envolvimento dos três poderes, para dar condições reais de retomada ao setor. Pequenos e médios produtores, em especial, são os mais atingidos e os que correm maior risco de inadimplência ou abandono da atividade agrícola.
Sinais de esgotamento e o medo do colapso
Além da dívida bancária, muitos produtores relatam dívidas com cooperativas, fornecedores de sementes, defensivos agrícolas e até contas básicas, como energia elétrica e água. O temor de perder propriedades por execução judicial virou rotina em diversas comunidades do interior.
Famílias inteiras dependem da renegociação para continuar vivendo no campo. “Se não houver securitização, vamos ver um êxodo rural silencioso, com gente abandonando a terra por falta de alternativa”, alertou Trentin, em meio à concentração de tratores em Passo Fundo.
Algumas cooperativas já registram retração de investimentos e cancelamentos de contratos com fornecedores, prevendo um cenário ainda mais desafiador para o segundo semestre de 2025.
O tratoraço como instrumento político
Mais do que um protesto, os tratoraços têm se tornado uma ferramenta de pressão política no campo. Desde o início do ano, os atos se multiplicaram em diversas regiões do país, especialmente no Sul, onde a crise climática tem impactos diretos e frequentes sobre a produção.
Em Brasília, parlamentares ligados ao agronegócio, como o senador Heinze, têm tentado articular o avanço do projeto de securitização. O apoio ruralista à proposta é quase unânime, mas o impasse orçamentário e a falta de consenso com o Executivo ainda travam sua tramitação.
"A pressão popular ajuda, mas precisamos que o Congresso e o governo sentem juntos à mesa com o setor produtivo e encontrem uma saída viável", disse um assessor do Ministério da Agricultura, que preferiu não se identificar.
Impactos nas cidades e no comércio local
A crise rural afeta também o comércio e a prestação de serviços nas cidades do interior. Quando o produtor rural aperta o cinto, os reflexos atingem oficinas, mercados, lojas de roupas, concessionárias, farmácias e até escolas.
Em Passo Fundo, empresários relataram queda nas vendas e atrasos em pagamentos. “Se o produtor não planta, não colhe e não paga, todos sentimos. Está na hora de tratar o agro com a seriedade que ele merece”, disse uma comerciante de insumos agrícolas da região.
A mobilização dos agricultores no Rio Grande do Sul é um grito por socorro. Mais do que pedir alívio temporário, os produtores exigem um plano de reconstrução econômica e social para o campo. Com cinco anos consecutivos de perdas, o setor não quer mais promessas: quer soluções duradouras.
A securitização das dívidas aparece como o único caminho viável para garantir a permanência de milhares de famílias no campo, evitar colapsos econômicos regionais e manter viva a base produtiva do país. Com a pressão aumentando e o tratoraço ganhando novos capítulos, o governo federal e o Congresso terão que responder à altura — antes que seja tarde demais.

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